REDUÇÃO DO DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS: UM PASSO CRUCIAL PARA A TRANSFORMAÇÃO DO SISTEMA AGROALIMENTAR
À medida que o mundo observa o quarto Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos, a urgência de abordar o desperdício de alimentos nunca foi tão clara.
Com mais de 1 bilhão de toneladas de alimentos descartados anualmente, representando quase 20% de todos os alimentos produzidos para os consumidores[1], as implicações ambientais, sociais e econômicas do desperdício de alimentos são de longo alcance. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que até 40% da produção de alimentos é perdida antes de chegar aos consumidores devido ao armazenamento e transporte inadequados, o que levanta um claro apelo à ação não apenas do consumidor, mas também da indústria[2].
Este desperdício resulta em perdas econômicas significativas, além de também agravar a fome global e a degradação ambiental. Em um momento no qual mais de 780 milhões de pessoas são afetadas pela fome[3], lidar com o desperdício de alimentos tornou-se uma prioridade crítica para alcançar a sustentabilidade.
Danos ambientais e desigualdade social, o custo oculto do desperdício de alimentos

O desperdício e a perda de alimentos são um dos principais contribuintes para as emissões de gases de efeito estufa, responsáveis por cerca de 8-10% das emissões globais[4]. Somente na Europa, o desperdício de alimentos é responsável por cerca de 16% das emissões do sistema de alimentos[5]. Os recursos desperdiçados – terra, água e energia – intensificam o impacto ambiental, contribuindo ainda mais para o desmatamento, a perda de biodiversidade e a escassez de água.
Além do custo ambiental, as implicações sociais também são igualmente preocupantes. Os alimentos desperdiçados poderiam alimentar milhões, aliviando a fome experienciada por uma parcela significativa da população global. Essas consequências duplas ressaltam a necessidade urgente de mudança.
As ramificações econômicas são igualmente impressionantes: globalmente, o desperdício de alimentos custa aproximadamente US$ 1 trilhão por ano[6], afetando empresas e consumidores. Para a indústria alimentícia, essa ineficiência resulta em perda de receitas e aumento de custos. Fabricantes de alimentos, varejistas e restaurantes arcam com o ônus desse desperdício, seja de estoque descartado ou taxas de descarte mais altas. Para enfrentar esses desafios, é crucial que empresas e governos adotem soluções que promovam o consumo sustentável.
Panorama regulatório: a resposta global e local ao desperdício de alimentos
Governos em todo o mundo estão intensificando seus esforços para combater o desperdício de alimentos por meio de regulamentações e outras iniciativas. No âmbito internacional, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas estão abordando o assunto por meio do Objetivo 12, "Garantir padrões sustentáveis de consumo e produção". A terceira meta do ODS exige uma redução de 50% no desperdício global de alimentos até 2030[7], e diversas regiões estão avançando para atingir essa meta. A União Europeia, por exemplo, alinhou seus objetivos com o ODS 12.3 e, sob seu Green Deal, estabeleceu metas de redução do desperdício de alimentos de 30% nos níveis de varejo e doméstico até 2030[8]. Além disso, em março de 2024, o Parlamento Europeu votou por cortes de 20% no processamento de alimentos e 40% para varejistas.
A França implementou a Loi Anti-Gaspillage (Lei Anti-Desperdício), que exige uma redução de 50% no desperdício de alimentos até 2025 para setores como distribuição de alimentos e alimentação coletiva, com metas semelhantes estabelecidas para 2030 em consumo, produção, processamento e alimentação comercial. O Selo Anti-Gaspi francês, introduzido para certificar as empresas que atingem essas metas, serve como um exemplo de como a certificação pode incentivar as empresas a agir.
Na Ásia, a Coreia do Sul possui um dos sistemas de gerenciamento de resíduos alimentares mais eficientes do mundo, reciclando mais de 98% de seus resíduos alimentares, enquanto o Japão implementou leis de redução de resíduos alimentares desde 2001. Mais recentemente, a China promulgou sua Lei Anti-Desperdício de Alimentos em 2021, introduzindo medidas rigorosas, como multas para empresas que promovem o consumo excessivo, restrições ao pedido excessivo de alimentos em restaurantes e penalidades para conteúdo de mídia que incentiva o desperdício. Campanhas públicas para aumentar a conscientização sobre a conservação de alimentos também fazem parte da iniciativa.
Na América do Norte, os Estados Unidos abordam o desperdício de alimentos com regulamentações estaduais, lideradas pela Califórnia e Nova York. Canadá, México e Estados Unidos também colaboram no âmbito da Comissão de Cooperação Ambiental (CEC) para reduzir a perda de alimentos em toda a região.
No Brasil, em 2020 foi sansionada a Lei nº 14.016, permitindo que estabelecimentos que produzam ou forneçam alimentos doem excedentes que ainda estejam próprios para consumo, desde que atendam a critérios como prazo de validade, inalteração da qualidade nutricional, integridade e segurança sanitária. A lei beneficia famílias e grupos em situação de vulnerabilidade ou de risco alimentar ou nutricional.
Qual estrutura para as organizações que lidam com o desperdício de alimentos?
Diante de regulamentações cada vez mais rigorosas e crescentes expectativas dos consumidores em relação à sustentabilidade, as organizações são obrigadas a adotar uma abordagem estruturada para a redução do desperdício de alimentos. O passo inicial para qualquer entidade é formular uma estratégia abrangente, levando em consideração seus processos operacionais específicos, dados demográficos do cliente e as partes interessadas mais amplas afetadas pelo desperdício de alimentos. O estabelecimento de metas realistas é fundamental, e estruturas reconhecidas pela indústria, como o Protocolo de Perda e Desperdício de Alimentos ou a Orientação FFSC, são inestimáveis para ajudar as organizações dispostas a estabelecer objetivos mensuráveis e monitorar o progresso de forma eficaz.
Laure-Anne Mathieu, Gerente Global de Auditoria de Alimentos do Bureau Veritas, explica: "Após o estabelecimento desses objetivos, o maior desafio está na seleção de ferramentas apropriadas para a quantificação do desperdício de alimentos. Esse processo é crucial no desenvolvimento de uma linha de base confiável, seja empregando metodologias de balanço de massa ou análise de dados proxy."
Também é imperativo que as organizações priorizem o treinamento de suas equipes e incorporem uma ética de redução do desperdício de alimentos em seus valores fundamentais. Programas de treinamento abrangentes permitem que os funcionários compreendam seu papel no ciclo de redução de resíduos, seja por meio de práticas de aquisição aprimoradas, otimização de processos de produção ou alinhamento da previsão de vendas com a demanda para mitigar o excesso de estoque. "Um sistema de gestão coerente não apenas gera redução de custos, mas também mitiga riscos e aumenta a eficiência operacional", enfatiza o especialista.
Outro fator crítico para o sucesso é a implementação de sistemas robustos para garantir a precisão na medição e no relatório do progresso. Embora nem sempre seja obrigatório, a adoção de um programa de asseguração ou certificação é altamente aconselhável. Esses programas proporcionam confiabilidade na divulgação de dados e incutem confiança nas partes interessadas quanto à veracidade dos resultados, com especialistas independentes conduzindo processos de verificação rigorosos.
A certificação do Sistema de Gerenciamento de Resíduos de Alimentos (FWMS) oferece uma estrutura holística que ajuda as organizações a implementar os processos certos para quantificar, gerenciar e reduzir o desperdício de alimentos em suas operações. Não se trata apenas de conformidade com os regulamentos, mas de integrar a sustentabilidade na própria estrutura de um negócio.
Um dos principais benefícios da certificação é a capacidade de medir o desperdício de alimentos com precisão. Como diz o ditado, "você não pode gerenciar o que não pode medir". Um sistema de certificação de desperdício de alimentos exige que as empresas quantifiquem seus resíduos em cada estágio de sua cadeia de suprimentos, identifiquem as principais ineficiências e estabeleçam metas claras de redução. Por meio desse processo, as organizações podem acompanhar o progresso em tempo real e fazer ajustes baseados em dados conforme necessário, garantindo que estejam no caminho de reduções significativas e mensuráveis.
O Bureau Veritas oferece suporte incomparável às organizações ao longo dessa jornada, fornecendo um conjunto abrangente de serviços de certificação, auditoria e treinamento. Esses serviços são projetados para auxiliar as empresas na implementação e manutenção de estratégias robustas de redução de resíduos. Por meio do fornecimento de soluções sob medida para atender aos requisitos regulatórios locais e internacionais, o Bureau Veritas garante que as empresas não apenas cumpram os padrões legais, mas também cultivem a confiança de seus clientes por meio da adoção de práticas sustentáveis. Aproveitando mais de 195 anos de experiência, a empresa capacita as empresas de alimentos a reduzir o desperdício e aumentar a eficiência operacional, demonstrando assim que a sustentabilidade pode, de fato, ser um impulsionador da lucratividade.
[1] https://www.unep.org/resources/publication/food-waste-index-report-2024
[2] https://www.fao.org/in-action/seeking-end-to-loss-and-waste-of-food-along-production-chain/en/
[3] https://www.unep.org/resources/publication/food-waste-index-report-2024
[4] https://www.unep.org/resources/publication/food-waste-index-report-2024
[5] https://www.europarl.europa.eu/topics/en/article/20240318STO19401/food-waste-reduction-what-eu-actions-are-there
[6] https://www.unep.org/resources/publication/food-waste-index-report-2024
[7] https://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-consumption-production/
[8] https://food.ec.europa.eu/safety/food-waste/eu-actions-against-food-waste/food-waste-reduction-targets_en