COP 30: Do Território ao Board - Como Transformar Compromissos Globais em Execução Prática
Recentemente, tive o prazer de participar de um episódio memorável do BV Cast, ao lado de Karolina Gutiez (Schneider Electric) e Amanda Neme. Debatemos as perspectivas e, principalmente, os legados que a COP30 deve deixar não apenas para o Brasil, mas para a estratégia das organizações que buscam liderar a transição climática.
Viver e sentir a COP em Belém foi uma experiência transformadora, como nunca imaginei. Mais do que um evento diplomático, a materialização da discussão sobre território trouxe à tona uma verdade incontornável: a agenda climática só se implementa, de fato, quando incluímos as cadeias locais e as pessoas que nela habitam.
Abaixo, sintetizo os pilares fundamentais dessa reflexão e como, na minha visão, eles impactam o futuro dos negócios.
1. A Materialização do Território e o Legado Humano
A Amazônia Legal abriga cerca de 26,7 milhões de habitantes. Falar de transição climática sem olhar para o mosaico de diversidade formado por povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, é ignorar a base da pirâmide socioambiental.
Os povos da floresta enfrentaram ciclos históricos de secas e queimadas. Nove em cada dez terras indígenas foram impactadas pela seca em 2024, dificultando o acesso a água e alimentos. Além disso, a Amazônia continua sendo a região com maior índice de conflitos no campo e violência contra defensores ambientais, decorrentes do garimpo ilegal, desmatamento e de disputas territoriais.
Em Belém, a mensagem foi clara: não existe transição justa sem capacitação local.
Acredito que a educação é o alicerce para que as metas globais se tornem processos reais. O avanço da sustentabilidade passa por criar capacidade instalada no território: pessoas preparadas para medir, monitorar e reportar resultados com qualidade técnica.
2. O Trilema do Financiamento: Confiança, Compliance e Capital
Um dos pontos mais sensíveis da COP30 é o financiamento. Enquanto o Norte Global foca na descarbonização, o Sul Global enfrenta custos de capital até sete vezes mais altos para projetos verdes, com um grande desafio para aderir e construir regulações e regulamentações internacionais, assim como criar políticas públicas e taxonomias próprias.
Dito isso, com período de instabilidade geopolítica e prorrogação de regulações que temos vivido nos últimos dois anos, as iniciativas que impulsionariam o mercado a minimizar seus impactos sobre o clima, a natureza e a biodiversidade, principalmente falando de empresas que não possuem uma cultura voltada à sustentabilidade.
O capital está disponível; o que falta, muitas vezes, é a ponte da confiança. Investidores e instituições multilaterais não respondem mais a promessas genéricas, exigindo estruturas sólidas de governança e dados rastreáveis. É aqui que o papel de organizações independentes se torna vital, porque possibilitam essa transição, apoiando empresas na estruturação de:
- Green, Social e Sustainability-Linked Bonds (e Loans): promovendo metas mensuráveis e alinhadas a princípios internacionais.
- Princípios do Equador: gestão de riscos socioambientais em financiamentos de projetos.
- Verificação Independente: seja para a Climate Bonds Initiative (CBI) ou para iniciativas como o EcoInvest e a CPR Verde, a verificação é o que destrava o capital.
3. O Desafio da Cadeia de Valor (Escopo 3)
Não existe descarbonização real sem olhar para a cadeia de fornecimento. No Brasil, onde pequenas e médias empresas representam 99% dos negócios, o desafio é enorme. Barreiras como alta burocracia e dificuldade de acesso ao crédito só podem ser vencidas com capacitação técnica sobre como implementar a agenda com qualidade, transparência e rastreabilidade.
A transição exige que as grandes corporações tragam seus fornecedores para a jornada da sustentabilidade, integrando economia circular e métricas rigorosas de governança.
4. Além do Greenwashing: A Era da Evidência Técnica
O debate sobre greenwashing amadureceu. O risco hoje não está apenas na comunicação, mas na falta de lastro técnico. O mercado e os reguladores estão convergindo para uma exigência de dados padronizados e verificação independente.
Sustentabilidade precisa ser um tema tratado como qualquer outro fator crítico do negócio: com auditoria, controles e métricas de performance.
O Legado para os Conselhos de Administração
O principal legado da COP30 para o Brasil é nossa mudança de posicionamento: deixamos de ser apenas detentores de capital natural para nos tornarmos estruturadores de soluções.
Para os Boards, o próximo passo imediato é integrar o clima e o impacto social ao planejamento financeiro e à gestão de riscos. Conselhos de administração devem começar a fazer perguntas diferentes: Qual a qualidade dos dados que embasam nossos compromissos? Qual nossa capacidade real de execução?
A transição climática não é mais uma promessa futura; é um imperativo de competitividade presente.